Cultivando a Equanimidade

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~ por Narayan Liebenson Grady ~

Extraído de um ensinamento dado durante um retiro sobre a equanimidade no Cambridge Insight Meditation Center – EUA

Como seres humanos, estamos sujeitos à mudança contínua ao longo de toda a vida. Os taoístas falam das dez mil tristezas e das dez mil alegrias. A alegria se transforma em tristeza. A tristeza se transforma em alegria. Não há exceção. A equanimidade é uma qualidade libertadora que nos dá um coração aberto e equânime, calmo e estável, no meio das vicissitudes da vida.

Desenvolvemos a equanimidade estando atentos a nossas reações àquilo que o Buddha chamou os oito dhammas (fenômenos) mundanos. Esses oito dhammas mundanos são formados de quatro pares de opostos. Todos nós, em um momento ou outro, somos vítimas deles. Cultivar a equanimidade consiste em observar profundamente como reagimos à sua presença (dos opostos) no curso de nossa vida.

O primeiro par é louvor e censura. Quando somos elogiados, felicitados, é possível para nós tomar consciência de nossa reação? Rejeitamos o elogio automaticamente, para evitar um mal-estar, ou, ao contrário, nós nos regozijamos e esperamos mais? Sendo criticados, podemos observar nossa reação? Nossa reação pode tomar diversas formas: às vezes tentaremos justificar nossa ação, ou nos censuraremos, ou faremos a crítica recair sobre a pessoa que nos censura. Pensaremos imediatamente que a pessoa tem razão, ou, ao contrário, que ela está errada.

Com certeza é provável que nos sintamos mal quando somos censurados. A questão é a seguinte: podemos ficar atentos ao sentimento de mal-estar sem nos perdermos nele? Podemos permanecer conscientes de nossa reação à censura sem nos deixar levar pela história? Tratando-se de uma informação útil, podemos aproveitar algo dela? Em caso contrário, estamos em condição de deixar passar? Podemos ver que tanto o louvor quanto a censura escapam completamente ao nosso controle?

O segundo par dos oito dhammas mundanos diz respeito ao ganho e à perda. Como reagimos ao ganho? O ganho é sempre algo positivo? Como reagimos à perda? Uma perda é sempre algo negativo? Quando refletimos sobre nossas experiências passadas, não é exato que algo que considerávamos um ganho se revelou ser uma perda e, inversamente, algo que tínhamos tomado como perda finalmente se revelou ser um ganho? Quando nós nos prendemos a um ganho, não há o medo de perder aquilo que foi ganho? Com o apego que nasce do sucesso, não há ao mesmo tempo o medo do fracasso?

Cada cultura tem sua própria ideia fixa do que constitui um sucesso ou um fracasso.Quando nós nos agarramos a certos modelos pré-definidos, nós nos expomos à decepção. Se queremos encontrar uma liberdade interior autêntica, é preciso colocar em questão esses modelos de comportamento para deixar surgir nossa própria compreensão das coisas.Veremos então que ganhos e perdas fazem parte dos fluxos e refluxos da vida.

Na prática da equanimidade, precisamos nos tornar conscientes da nossa relação com o prazer e a dor, o terceiro pardos dhammas mundanos. Que se passa quando corremos atrás do prazer e rejeitamos o sofrimento? É possível para nós compreender o sofrimento inerente à perseguição dessa política de procura do prazer e de fuga da dor? Esse sofrimento é inerente a esse par de opostos? Ou realmente é possível experimentar o prazer plenamente sem apegar-se a ele e tentar perpetuá-lo? Quando experimentamos uma sensação dolorosa, podemos abrir-nos à dor sem tentar rejeitá-la?

Para nos libertarmos dos oito dhammas mundanos precisamos compreender sua natureza mutável. Compreendendo que o prazer e a dor surgem e depois desaparecem, vendo que esses dois opostos estão freqüentemente fora de nosso controle, aprendemos a não nos apegar; no nosso não-apego encontramos a liberdade. Nós nos abrimos ao prazer e à dor e, entretanto, não somos sufocados pelo desejo ou a aversão.

Boa e má reputação constituem o último par dos oito dhammas mundanos. Sentimos necessidade de ser vistos pelos outros quando executamos um ato meritório? Qual é nossa reação a uma crítica? Qual relação mantemos com o status? Tornando-nos conscientes da maneira como cuidamos de nossa reputação, nós nos libertamos da opinião dos outros.

A fim de nos familiarizarmos com essas condições e nos tornarmos mais equânimes, precisamos compreender sua não-substancialidade. Pela prática da atenção nós nos tornamos mais conscientes de sua impermanência inerente. Vemos a natureza condicionada da reputação e compreendemos que a paz duradoura e a felicidade não surgem do renome. Vemos que más palavras têm efeito apenas temporário e não deveriam nos afetar de modo duradouro. Quanto mais estivermos direcionados para encontrar nosso equilíbrio em relação a essas condições, mais nós nos libertaremos da necessidade de sermos percebidos de um modo particular. Descobriremos então uma paz que não depende da maneira como os outros nos percebem.

Se pudermos nos lembrar constantemente de trazer a vigilância a esses dhammas mundanos à medida que surgem em nossas vidas diárias, começaremos a ver o sofrimento presente no apego. Começaremos a ver a vacuidade essencial e a impermanência das condições. Na prática da meditação podemos não gostar daquilo que surge, e ainda assim, a disponibilidade em permanecer com aquilo que está acontecendo é o que traz a libertação. Quanto menos apegados ao conforto, mais à vontade estaremos em relação a nós mesmos e a esse mundo.

A prática da equanimidade não significa que devemos tornar-nos seres passivos. Quando faz calor nós abrimos a janela. Mas cada vez que não está em nosso poder modificar as coisas, é possível para nós um refúgio interior? Esse refúgio interior é nossa capacidade de ser equânime.

© Narayan Liebenson Grady
© tradução do francês de Cecília Villacian para o Centro Buddhista Nalanda, 2005


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Narayan Liebenson Grady tem praticado meditação pelos últimos vinte e cinco anos nas tradições Thai and Birmanesa. Ela é uma das orientadoras do Cambridge Insight Meditation Center onde tem ensinado desde sua inauguração em 1985. Narayan é uma professora de dharma senior no Insight Meditation Society e ensina anualmente no Barre Center for Buddhist Studies. É autora de um pequeno livro intitulado “When Singing, Just Sing: Life as Meditation“.